segunda-feira, 10 de janeiro de 2011

Refresh.

Lourenço era um pobre desgraçado
sonhador - afoito, visionário
jogava na sena toda miséria
toda iminência
sempre quis ser milionário
era seu maior querer
seu amanhã
seu destino
andava tranquilo pelas ruas
apesar de tudo, era feliz
era feliz
tinha feridas, tinha calor
tinha dor nas costas
e torcia, erguia preces
um dia ganhou, caiu do céu
número sorteado, o jogo de sempre
de mandingas, macumbas
ficou rico, o desgraçado
chutou o barraco
tinha o ouro, tudo que sempre quis
festejou, comprou sua própria galáxia
se mudou, mudou
perdeu feridas, dores
algumas
ganhou outras
brigou com o tempo
perdeu a guerra
ficou pobre, desesperado
desolado, o desgraçado
ficou triste, por um tempo
dois tempos, três
agora só, sem lantejoulas, sem a galáxia
voltou pra rua, a andar livre
voltou a sorrir, era feliz
apesar de pobre
não era pobre, na verdade
era um sonhador, um visionário
e voltou a viver, a andar livre
a ter dores, feridas - perdeu algumas
ganhou uma vida, perdeu outra
o desgraçado.

domingo, 3 de outubro de 2010

Apenas mais uma de "amor".

A figura do "amor" - ainda que distorcida - merece quantas releituras e rememórias forem precisas, para que tome-se parte de algum dele (mesmo que de forma meramente literária; que já deleita) pela complexidade da sua concepção, bem como a simplicidade da sua sensação - em contrapontos; mas não.
O poeta amargurado (simulacro) em discussão com o presente [gram. - dádiva]. Inopinado.
Ora:
- Te guardar n'um potinho.
- Te colocar na minha estante.
- Te guardar no coração.
- Te chamar de coração.
- Te chamar de presente; te guardar no futuro.
- Me fazer carente, pra te ter presente.
- Me fazer presente, pra ter ter na mente. Eternamente.
Com o perdão da breguice (e pieguice) das rimas, o portal se fecha atrás dele.
E, ali - vacila - é o sol!

quarta-feira, 15 de setembro de 2010

Retomar.

tornar. retornar. contornar.
sem a luz
fazer o caminho de volta
no escuro
apalpando a verdade, no escuro
pisando firme, em cuidado
confiando no extinto
no som emitido pelo tempo
remando de volta
sem norte
no escuro
ao ronco do trovão
procurando as pétalas caídas
no chão denso
buscando tesouros perdidos
ignorados, subestimados
deixados pra trás
por confiança
pela luz, pela vida
vislumbrando frustradamente
pontes caídas
onde não há mais passagem
contornar
cavernas obstruídas
pelo descuido e pela forte chuva
não mais abrigam
não mais aquecem
não mais vivem
nem respiram
continuar
retomar,
no escuro.

terça-feira, 17 de novembro de 2009

Outra canção da despedida.

só a sensação de estar vivo
tocar a saudade
furtar-me-á o sono
a cantarolar de frio
tremer de felicidade, a plena
chorei, ao ver o dia se fechar pra mim
e já é hora de dormir
largar todo feito
a me privar parcialmente do amanhã
solfejar sem leito, peito aberto
descativo, em tempo
voltar pra casa
que me acolhe desde sempre
com chá e calor
por todos esses dias
e essa sensação
migrar-se-á pra o hoje
que sorte, que paz
mesmo aqui, posso ver
estou vivo.

quinta-feira, 8 de outubro de 2009

Menino dos pés.

Já fui menino dos pés
pés descalços nas Minas Gerais
de velhas chacinas de almas perdidas
de olhos vidrados na pelota
despreocupado de tudo, por nada
rei da minha puerícia

já fui caubói, senhorita
do sorriso sincero e convidativo
timidez no abraço tinha
e em árvores me via
no vento recreava, brilhante como tudo que é feliz

já fui moço, ah
das mãos, probo moço
a dedilhar o futuro na viola primeira
sempre clamado pelo Rio
de saudosa Mangueira
de novas latrinas de idéias malditas
da boêmia e do samba velhaco
da mãe do menino dos pés

hoje me pego, cria do menino
pensador pouco baldado
escritor de linhas mortas
que ganham vida só por ti
sou menino de novo
menino da menina, ah
dos pés, firmes, decididos
de vereda imutável
ainda clamado pelo Rio
terra matriz, que ao mundo te deu,
que ao tudo me deu - você.

domingo, 2 de agosto de 2009

Continua lindo.

Sou eu, sou eu
Que rabisco versos tais
Bambos a cair
Quaisquer que sejam eles
Sob o sol radiante do próximo passo
Alta Via d'um caminho sem volta
Grato pela graça
Canto você, nêga
Sonho você, sinto
Não durmo, canto
Sou eu
A tal vítima do afago
A correr Nossa Senhora
Cheio de mar ao lado
Saudoso, então, abalado
Cheiro de mar, sou eu
Mas, dane-se a orla
Que já tenho o céu.

quarta-feira, 1 de julho de 2009

Uma perda.

Mesmo em meio a colidências paternais bélico-conflitantes situações caseiras, ver o pai da gente abatido é algo um tanto chato e desagradável.

Estava eu em guerra com os métodos ineficientes e pseudo-modernistas do meu pai, semana passada, como de praxe, resolvi sair pra espairecer, em meio ao ambiente festeiro que essa época do ano, graças às inúmeras festas juninas (e julinas) proporcionam. Recebo um telefonema. Minha mãe, com uma voz meio receiosa, me diria ali, à 1 da madrugada que partiriam para o Rio de Janeiro pela manhã, pois meu pai acabara de perder uma de suas irmãs, que lá viviam. Era domingo. (Ela já vinha doente há tempos, disse ele a mim, em uma de nossas conversas raras. Tinha câncer de colo de útero. Sem reversão. Era uma bomba relógio.)
Me pegara desprevenido, sem reação àquela notícia assaz trágica. Embora eu tivesse puxado pela memória a fim de lembrar/realizar uma imagem, lembrança da tal vítima falal, nada constavam em meus arquivos reminiscentes, além do nome (pseudônimo, apelido, pelo qual era mais conhecida). Enfim, fiquei levemente abatido e preocupado.
Voltando pra casa, instantes depois, adentro meu quarto, que divido com meu irmão mais novo, mas, pra minha supresa, um corpo maior do que o dele se encontrava na cama do dito cujo. Sim, era meu pai, acordado, inquieto, às altas 3 e alguma coisa da madrugada. Se levantou, cabisbaixo, foi ao banheiro. Peguei algo pra morder e me sentei no sofá da sala. Veio ele, se deitou ao meu lado, com os olhos inchados de não-dormir. Me fitou n'aquele lance ímpar, visivelmente sem chão, me fazendo esquecer todas as nossas diferenças e critérios, peculiaridades. Não sabia o que dizer. Nada disse. Mordi umas duas vezes o salgado frio (que nem gosto mais sentia), engolindo mais saliva do que as calorias, me levantei, o abracei forte, beijei-lhe a testa, desejei boa viagem e desabei na cama, de coração cortado e pernas bambas, o amando mais do que o normal, querendo demasiadamente nunca mais surpreendê-lo n'aquela situação. E ali fiquei, tentando entender e incorporar o que ele sentia. Não consegui. Adormeci.

segunda-feira, 30 de março de 2009

amanhã.

amanha eu vou olhar pra trás
ver o quê?
ontem olhei pra você, te fiz como nos sonhos
te quis como em chama
rosas brancas te dei, desbotadas
cansadas, esperançosas
te dei como nos dias
cinzas dias
ontem te vi assim, amanhã te tiro de mim

futuro real, se faz
santo apelo, àquele amanhã
te lanço no azul céu, com meus olhos fartos de desejo
pr'um futuro bom
que se forma a partir de um fio
meu cheiro, cabelos
meu jeito, apelos

*"futuro bom é aquele em que todos os verbos serão conjugados na primeira pessoa do singular..."
...futuro bom é aquele que a primeira pessoa do singular vira primeira do plural.



*(por Aava Santiago)